Hostilidade entre as crianças: como gerir?

Hostilidade entre as crianças: como gerir?

Atualmente, uma das preocupações mais frequentes dos pais é como ajudar os filhos a lidar com a agressividade ou hostilidade dos outros. Esta preocupação pode começar quando as crianças ainda são pequenas e lhes batem ou tiram brinquedos, mas acentua-se sobretudo quando as crianças começam a crescer e se confrontam com situações mais complexas, como hostilidade e até bullying nas escolas. Neste contexto já recebi pais desolados porque sempre procuraram educar os seus filhos dentro de determinados princípios e valores e não compreendem porque é que os filhos são agressivos para outros. Já recebi pais desolados porque educaram os seus filhos para serem gentis e nunca usarem a violência, e depois foram agredidos por outras crianças e não se souberam defender. Em ambos os casos, há sofrimento, há frustração, há um sentimento de impotência… O que podemos fazer? O que está e não está dentro do nosso controlo? O que fazer quando o nosso filho é agressivo, ou quando é agredido? Digo-lhe para bater no outro? Como gerir estas questões da violência e hostilidade entre as crianças (seja física, verbal, social/emocional ou psicológica)?

Cada caso é um caso, mas deixamos algumas sugestões a considerar desde a primeira infância:

• Ensinar a bondade e a tolerância desde pequeninos é muito importante. Ensinar e modelar a gentileza, a simpatia, a empatia e o respeito pelos outros, é a base. Ensinar as crianças a defenderem-se e a agirem corretamente com os outros é um processo de orientação que acontece ao longo do tempo. Cada família tem as suas próprias regras, mas é importante educar com a noção de que tratar bem os outros e ser bem-tratado é um direito e uma responsabilidade. “Preparar uma criança para a vida não é normalizar a violência, mas educar para o respeito, igualdade, não-violência e não discriminação.” (Ordem dos Psicólogos Portugueses)

• A confiança e a auto-estima são outro pilar essencial. A criança gostar de si mesma, conhecer-se e saber quais são as suas forças, confiar nas suas capacidades, saber que é muito amada, ter orgulho em si própria. Perceber que cada um é como é e que está tudo bem assim. Aceitar as suas características interiores e exteriores. Esta segurança e confiança são protetoras e constroem-se com o tempo, através do amor e aceitação, da atenção positiva dos pais, das relações e experiências da criança e da sua autonomia e independência graduais (“sou capaz de …”). Incentivar atividades, interesses e hobbies, pode ajudar a aumentar a confiança da criança e facilitar a construção de amizades.

• A assertividade é essencial, saber dizer não com segurança e firmeza, saber expor os seus desejos e interesses sem desrespeitar os dos outros, saber impor os seus limites. Modele essa assertividade e dê à criança a segurança para se afirmar (“Não aceito isto, não admito isto, não quero isto”), mas também para pensar de outras perspetivas (“O que o outro quer? O que o outro pensa e sente?”).

• Procure estar presente para escutar, conversar, reconhecer e valorizar a criança, compreender e validar as suas emoções e procurar soluções em conjunto. A criança deve sentir-se escutada e segura, sendo importante ajudá-la a construir uma rede de apoio e planos de ação para os momentos em que se possa sentir mais sinta insegura.

Brincar com a criança, conversar e ler livros sobre temas neste âmbito desde cedo, ajuda a criança a ganhar vocabulário e compreensão emocional e a perceber como pode gerir determinadas situações.

• Ajude a criança a perceber quem são as pessoas com quem se sente melhor e a fortalecer essas amizades. É importante a criança sentir que está acompanhada e tem amigos.

• Em paralelo com a aceitação das dificuldades e emoções mais desconfortáveis, cultive momentos de alegria, de felicidade, de atitude positiva perante a vida, como fator de proteção para lidar com os desafios da vida. Brincar, rir, fazer exercício, contactar com a natureza…são tudo atividades protetoras do nosso bem-estar.

• Não tenha receio de conversar com os educadores e professores, de tentar perceber melhor a situação e de pedir ajuda para lidar com a mesma. Peça também ajuda a um Psicólogo sempre que necessário. Seja na perspetiva de vítima, seja de agressor, é importante que tanto os pais como os diferentes atores educativos saibam o que se passa para poderem orientar as crianças. Aconselhe a criança a contar o que se passa, elogiando a sua coragem para o fazer, a pedir ajuda a um adulto e a mostrar que não tem medo.

Sugerimos ainda que consultem o Play Nicely: Guia de Disciplina Saudável, um guia traduzido e adaptado por Peixoto (2025) e editado pela Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ). Neste guia são apresentadas cinco recomendações essenciais:

1. Ensine o seu filho a não se deixar magoar pelos outros Se a criança disser que foi magoada, procure primeiro compreender o que aconteceu. Tente perceber se houve agressão física ou verbal e ajude-a a pensar em formas adequadas de reagir. Explique que todos precisamos aprender a lidar com situações em que alguém nos magoa. Uma boa estratégia é treinar essas situações através de encenações, para que a criança pratique o que pode fazer. Por exemplo, pode: Olhar nos olhos do outro; Falar com confiança e firmeza; Dizer frases como: “Pára”, “Não, isso dói", “Não me bates”, “Não faças isso”.

Se a outra criança não respeitar, deve afastar-se calmamente, mantendo uma postura segura, mostrando que não tem medo, mas que não aceita brincar com quem magoa os outros.

2. Aprenda formas de responder a comportamentos desafiantes Existem várias estratégias que podem ajudar: Estabelecer regras claras (ex.: “não se bate”); Redirecionar o comportamento, dizendo o que a criança pode fazer da próxima vez; Ajudar a refletir sobre o comportamento e os sentimentos dos outros. Por exemplo, pode perguntar: Porque é que esse comportamento não está certo? Como achas que a outra criança se sente quando lhe batem?; Também é importante incentivar brincadeiras e atividade física, pois, entre outros benefícios, ajudam a reduzir o stress e a melhorar o controlo das emoções; Elogie e valorize os comportamentos positivos. Se estas estratégias não resultarem, pode avisar que haverá uma consequência, como: um tempo de pausa ou retirada de um privilégio.

3. Reduza a exposição à violência e ao excesso de ecrãs Evite que a criança seja exposta a conteúdos violentos ou inadequados para a idade. Além disso: não permita acesso ilimitado a dispositivos eletrónicos, evite que existam ecrãs no quarto da criança e não aceite comportamentos agressivos em casa, quer entre crianças quer entre adultos.

4. Demonstre amor Demonstre amor, atenção e apoio todos os dias e procure passar tempo de qualidade com o seu filho. No entanto, amar não significa protegê-lo constantemente. É importante ajudar a criança a desenvolver resiliência, permitindo que enfrente e ultrapasse alguns desafios sozinha.

5. Seja consistente As regras devem ser claras e consistentes. Sempre que a criança desrespeitar uma regra, não deve ignorar a situação. É igualmente importante que todos os cuidadores mantenham as mesmas regras. Por isso, fale em privado com as outras pessoas que cuidam da criança para garantir que todos transmitem a mesma mensagem. Evite criticar o outro cuidador à frente da criança e se o seu filho se comportar de forma ofensiva ou desrespeitosa com outro cuidador, explique-lhe calmamente que esse comportamento não é aceitável. A criança melhora mais rapidamente quando percebe que ninguém permite maus comportamentos.

Veja aqui o Play Nicely: Guia de Disciplina Saudável

Outras sugestões:

Ordem dos Psicólogos Portugueses | Vamos falar sobre o bullying

Bullying - Grandes ferramentas para pequenos guerreiros de Coni La Grotteria;

Bully: Um mauzão que gostava de magoar os seus colegas de Rita Y. Toews e Vera Ramalho;

Girafritz Aprende uma Lição de Manuela Mota Ribeiro

Joana Nunes Patrício

Joana Nunes Patrício

  • Licenciada em Psicologia (ISCTE-IUL)
  • Mestre em Psicologia Social e das Organizações (ISCTE-IUL)
  • Pós-Graduada em Psicoterapia Comportamental, Cognitiva e Integrativa (vertente crianças e adolescentes; APTCCI)
  • Pós-Graduada em Sono na Infância e na Adolescência (ESS-CVP)
  • Participou em projetos de investigação e intervenção social e comunitária na área da proteção a crianças e jovens em risco, na área da parentalidade, e na área da educação.
  • Tem vindo a desenvolver a sua experiência e interesse profissional no âmbito da avaliação e acompanhamento de crianças e adolescentes, da avaliação do desenvolvimento infantil e do acompanhamento parental (em contexto social/educativo e clínico).
  • Mais recentemente, tem aprofundado o seu interesse e prática de intervenção na área do sono na infância e adolescência.

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