A importância dos primeiros anos, desde a barriga!

A importância dos primeiros anos, desde a barriga!

O estudo do desenvolvimento do cérebro, no âmbito das neurociências, tem vindo a demonstrar que os primeiros anos de vida são essenciais no desenvolvimento dos indivíduos e, consequentemente, no desenvolvimento das sociedades. Com efeito, o Center on the Developing Child de Harvard tem vindo a publicar diversas informações que indicam que um desenvolvimento saudável nos primeiros anos de vida (particularmente do nascimento até os três anos) é a base para o sucesso educativo, produtividade económica, cidadania responsável, saúde ao longo da vida, comunidades fortes e pais bem-sucedidos na próxima geração.

O Center on the Developing Child de Harvard criou um guia de três passos para ajudar a compreender esta fase de desenvolvimento e como apoiar crianças e famílias neste período: 1º) Porque é importante a primeira infância? 2º) Como acontece o desenvolvimento na primeira infância? 3º) O que podemos fazer para apoiar o desenvolvimento na infância?

Neste artigo apresentamos o primeiro passo deste guia - Porque é importante a primeira infância?

  1. A arquitetura do cérebro é construída ao longo do tempo, num processo contínuo, que começa mesmo antes do nascimento. As primeiras experiências afetam a qualidade dessa arquitetura, podendo estabelecer uma base mais robusta ou mais frágil para as aprendizagens futuras. Assim, o que acontece nos primeiros anos pode ter importância para toda a vida da criança.
  2. Uma das principais experiências neste processo de desenvolvimento da arquitetura do cérebro são as relações com interações bidirecionais entre a criança e os cuidadores, nas quais as crianças procuram a interação (ex. através de balbucios, expressões faciais e gestos) e os adultos respondem (ex. vocalizando e gesticulando de volta), ou vice-versa. Na ausência desta resposta (ou se a resposta for inadequada) a arquitetura do cérebro não se forma como esperado, não sendo ativados ou fortalecidos certos circuitos neuronais. Assim, experiências positivas na infância, com relações estáveis, acolhedoras e estimulantes, contribuem para a construção de um cérebro saudável, o que se reflete em termos da educação, da saúde e de outras competências sócio emocionais da criança. Por outro lado, experiências negativas na infância, com relações de incerteza, instabilidade, abusivas ou negligentes, podem impedir um desenvolvimento saudável do cérebro.
  3. A plasticidade do cérebro diminui com a idade. O cérebro é mais flexível no início da vida para acomodar a diversidade de ambientes e interações a que é exposto. No entanto, à medida que amadurece, torna-se menos capaz de se reorganizar e adaptar a novos desafios, embora se torne mais especializado para assumir funções mais complexas (i.e., algumas conexões são reduzidas e os circuitos de base vão-se complexificando). Isto significa que é mais fácil e eficaz influenciar a arquitetura do cérebro em desenvolvimento de um bebé do que conectar partes dos circuitos cerebrais na idade adulta.
  4. As capacidades cognitivas, emocionais e sociais estão interligadas, sendo que o bem-estar emocional e a competência social representam os tijolos e argamassas que constituem a base do desenvolvimento humano. Assim, se a criança estiver emocionalmente segura estará disponível para a aprendizagem, para o desenvolvimento de novas aquisições, mas se estiver preocupada, com medos ou em stress, a aprendizagem vai ser perturbada por este estado emocional.
  5. O stress tóxico (ex. derivado de extrema pobreza, abuso repetido, depressão materna, etc.) é um tipo de stress contínuo, que prejudica o desenvolvimento do cérebro. Na ausência do suporte de adultos para proteger a criança deste stress, este incorpora-se e danifica as conexões neuronais do cérebro em desenvolvimento, o que pode levar a problemas ao longo da vida na aprendizagem, no comportamento e na saúde física e mental.
  6. Em conclusão, os princípios básicos da neurociência indicam que a intervenção preventiva e precoce será mais eficiente e produzirá resultados mais favoráveis ​​do que a remediação mais tarde na vida. A ciência demonstra claramente que, em situações em que o stress tóxico é provável, intervir o mais cedo possível é fundamental para alcançar os melhores resultados. Indicam ainda que uma abordagem holística do desenvolvimento (emocional, social, cognitivo e da linguagem) prepara melhor as crianças para o sucesso na escola e, mais tarde, no local de trabalho e na comunidade. **As relações de apoio e as experiências de aprendizagem positivas começam em casa, mas também podem ser proporcionadas por outros cuidadores. Os cérebros dos bebés requerem relacionamentos estáveis, cuidadosos e interativos com os adultos. **

Traduzido e adaptado de Center on the Developing Child (2007). The Science of Early Childhood Development (InBrief). Retrieved from www.developingchild.harvard.edu.

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Francisca Carneiro

Francisca Carneiro

  • Licenciada em Política Social pelo ISCSP - Univ. Técnica de Lisboa
  • Pós-graduada em Orientação e Mediação Familiar pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa
  • Frequência do Mestrado em Educação de Infância (conclusão de ano académico) pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa
  • Membro da ISPCAN - International Society for the Prevention of Child Abuse and Neglect

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