Temperamentos


Cada pessoa tem o seu temperamento. Não o escolhemos, nascemos com ele, com uma forma própria de abordar o mundo, de o experienciar e interpretar. Algumas características de temperamento das crianças podem ser mais difíceis de lidar que outras (até conforme as próprias características e temperamento dos pais e cuidadores), mas não existe um temperamento certo ou errado, o essencial é aceitar a criança como é.

O que é o temperamento?

No geral, este pode ser entendido como um conjunto de características individuais, que têm uma base biológica ou genética, e que ajudam a explicar a forma como as crianças interpretam e interagem com o meio, as suas respostas emocionais, motoras, atencionais, a forma como abordam e reagem a situações, etc. Expressões como “É muito dado”, “Vai com todas”, “É muito fácil de levar”, “É desconfiado”, etc., são muitas vezes características do temperamento. Este é também influenciado pelas experiências da criança, desenvolvendo-se ao longo do tempo. Assim, diferentes práticas parentais, ambientes escolares, sociais, etc., podem ampliar ou atenuar determinados aspetos do temperamento.

Devemos agir de forma diferente consoante o temperamento da criança?

Sim. Diferentes estratégias podem funcionar melhor para crianças com determinadas características. Assim, perceber o temperamento das crianças permite usar práticas parentais mais ajustadas, que podem atenuar alguns aspetos mais difíceis do temperamento da criança (ex. com crianças ansiosas ou medrosas é especialmente importante evitar ser superprotetor e encorajar a exploração do mundo). A ideia não é tentar mudar o temperamento da criança, mas ajudá-la a lidar com as suas potencialidades e dificuldades. O ideal é quando as expectativas e métodos dos pais/cuidadores se ajustam às características da criança.

Quais as características do temperamento e como lidar com elas?

Diferentes investigadores identificaram diversas características do temperamento. Por exemplo, Thomas e Chess identificaram três perfis de temperamento (fácil, difícil e de adaptação lenta) e nove dimensões que ajudam a analisar o temperamento da criança: nível de atividade, regularidade / ritmo fisiológico, aproximação ou retraimento, adaptabilidade, sensibilidade / responsividade, intensidade de reação, qualidade de humor, distratibilidade e persistência. Numa outra abordagem, Rothbart e Bates, salientaram três dimensões no temperamento das crianças: extroversão, afetividade negativa e esforço de controlo. Destas dimensões, o esforço de controlo, que está relacionado com a autorregulação, parece estar associado a melhores resultados no desenvolvimento.

Assim, existem diferentes características de temperamento que requerem diferentes respostas, estratégias e exigências da parte dos pais e cuidadores. Nesse sentido, deixamos algumas sugestões da série Tuning Into Temperament (Zero to Three), mas atenção, cada criança é uma criança, o importante é ir conhecendo o seu filho e ir ajustando as suas estratégias para lhe responder de forma mais eficaz e positiva.

Algumas crianças frustram com maior facilidade quando as coisas não correm como querem, quando têm de esperar, e desistem mais facilmente perante um desafio...

  • Ajude-a a aprender a esperar e estratégias para se entreter. Ajude-a a lidar com a frustração, verbalizando emoções e sugerindo estratégias para resolver o problema.

Outras crianças são mais persistentes e capazes de esperar...

  • Brinque com a criança mesmo que não exija tanta atenção. Ajude-a a perceber que está disponível e que também é bom pedir ajuda. Encontre atividades divertidas e desafiantes que ajudem a criança a expandir e construir as suas competências.

Algumas crianças são mais calmas, mostram emoções de forma menos intensa, e precisam de mais estimulação para se envolverem...

  • Faça jogos e brincadeiras interativas, que impliquem a criança. Faça dramatizações quando leem juntos, expressando e entoando várias emoções.

Outras crianças reagem intensamente, manifestando emoções de forma clara...

  • Faça jogos e brincadeiras divertidas, mas que não sobrecarreguem a criança. Ajude a criança a acalmar. Mostre que a compreende verbalizando as emoções, e ensine-lhe estratégias para se acalmar e expressar.

Algumas crianças brincam de forma mais sossegada, preferem observar e ouvir, explorar a motricidade mais fina (ex. encaixes), e mantêm a atenção durante bastante tempo...

  • Respeite o ritmo e estilo da criança, oferecendo-lhe oportunidades de brincar com o que gosta. Desafie-a com atividades de movimento (ex. dança).

Outras crianças são muito ativas, não param, mexem em tudo e adoram espaços onde se possam movimentar livremente...

  • Proporcione oportunidades variadas de exploração e de brincadeira ativa e segura. Proteja a casa, tornando-a mais segura para a criança. Tenha estratégias de distração (ex. livro, jogo) para momentos que implicam mais tempo de espera.

Algumas crianças precisam de mais tempo e suporte para se sentirem confortáveis a interagir e brincar fora do seu círculo mais íntimo de amigos e familiares...

  • Ajude na aproximação da criança aos outros mantendo-se próximo. Comunique sentimentos positivos em relação aos outros. Fomente as amizades da criança, primeiro com uma ou outra criança e depois em grupos maiores.

Outras crianças aproximam-se mais facilmente de novas pessoas, interagindo, conversando e rindo, são "mais dadas” ....

  • Dê-lhe oportunidades variadas de interação social, como fazer passeios, ir a bibliotecas, a eventos, etc. Esteja disponível para a ajudar e orientar nas interações com os outros.

Algumas crianças têm mais dificuldade nas mudanças, são mais inflexíveis nas rotinas, precisam de mais tempo e apoio nas transições e para se sentirem confortáveis com ambientes/pessoas novas...

  • Use objetos de transição que ajudem a acalmar e a confortar a criança. Facilite as atividades indicando previamente o que vão fazer e/ou quando vai terminar a atividade (ex. “quando o livro acabar vamos para casa”).

Outras crianças abordam e interessam-se logo por coisas novas, adaptam-se muito bem às mudanças, e são flexíveis nas rotinas...

  • Ofereça à criança uma variedade de experiências novas, explorando-as e conversando sobre elas. Seja sensível aos sinais da criança - apesar de lidar bem com mudanças, também pode ter dificuldade e precisar de apoio em algumas transições.

Mais uma vez, não se esqueça que o essencial é conhecer o temperamento da criança (e também o nosso), aceitar e respeitar as suas características e necessidades, e tentarmos adequar as nossas práticas às mesmas.

Adaptado e traduzido de:

CEDPI & REC-DPI (2010). De olho no temperamento. Compreendendo a personalidade do seu filho. Retirado de http://www.enciclopedia-crianca.com/sites/default/files/docs/coups-oeil/temperamento-info.pdf

Fialho, M. (2019). Que temperamento este! Ao encontro de cada criança. Retirado de http://primeirosanos.iscte-iul.pt/2019/11/27/que-temperamento-este-ao-encontro-de-cada-crianca/

Rothbart, M. K. (2005). Temperamento inicial e desenvolvimento psicossocial. In R. E. Tremblay, M. Boivin, R. D. Peters, M. K. Rothbart, Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância. Retirado de http://www.enciclopedia-crianca.com/temperamento/segundo-especialistas/temperamento-inicial-e-desenvolvimento-psicossocial

Tremblay, R. E., Boivin, M., & Peters, R. D. (2011). Temperamento: Síntese. In M. K. Rothbart, Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância. Retirado de http://www.enciclopedia-crianca.com/temperamento/sintese

Zero to Three. Tuning into temperament Series. Retirado de https://www.zerotothree.org/resources/series/tuning-into-temperament

Zero to Three. Tips on temperamento. Retirado de https://www.zerotothree.org/resources/243-tips-on-temperament

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