O rei anda nu, mas já ninguém nota

09.11.2017

Por estes dias tem aparecido no meu feed de notícias um anúncio a um ursinho que faz a brincadeira do "cucu". Terá um mecanismo que faz com que o ursinho fofinho levante os bracinhos, tape o focinho com um pano e baixe os bracinhos. No anúncio, cada vez que o ursinho baixa os bracinhos, e aparece o seu focinho, o bebé ri, ri, ri e é uma delícia de riso. Os tipos do marketing são bons. Foi mesmo feito para vender!

 

Esta brincadeira do cucu é própria da idade. O bebé, como vamos aprendendo com os entendidos, toma consciência da permanência do objeto mesmo que ele desapareça da sua frente. E isso é importante. Mas o jogo do cucu é também um jogo de interação, de cumplicidade e precisa de tempo. Tempo dos pais.

 

Ora, os pais e as mães nunca tiveram pilhas como os ursinhos desta vida e quando estavam cansados costumavam dizer “vá, brincamos depois”. E a criança até podia não gostar muito, mas passava a conviver com essa realidade que é: “estou aqui pra ti, mas agora entretém-te um bocadinho sozinho, vais ver que o pensamento te leva mais longe!”.

 

O que acontece é que parece estar a entrar no esquecimento esta ideia de que uma criança é um ser capaz. As crianças são subestimadas a toda a hora. Brincar sozinho não é uma fatalidade. Não só não faz mal, como estimula a imaginação. Aliás, a ausência de brinquedos que são réplicas do mundo real capacita a criatividade, porque leva as crianças a desenvencilharem-se com objetos do mundo real e a convertê-los naquilo a que querem brincar.

 

E o adulto, que até estava presente, brincava ao cucu e ao mais que a criança pedia no tempo que lhe era permitido. E se tinha que ir fazer o jantar, tratar da roupa ou só ler o jornal, fazia-o e a criança aprendia, assim, que cada coisa tem o seu tempo. Aprendia que esperar não é o fim do mundo. Esperar até pode ser bom.

 

Toda a infância anda a ser subestimada quando falamos da indústria dos brinquedos, da segurança das crianças, etc., etc.., que teimam em nos encontrar necessidades que nunca imaginámos ter.

 

O rei anda nu, há algum tempo, mas já ninguém nota.

 

 

 

 

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